9.08.2007

Jump

Ismália - Alphonsus de Guimarães

Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...

E no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava perto do mar...

E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,

Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...

8.12.2007

Toda carta tem endereçamento, mesmo que se perca *

“O que você viveu ninguém rouba”
Gabriel Garcia Márquez - Memórias de minhas putas tristes


I

“Ontem à noite eu conheci uma guria, que eu já conhecia
de outros carnavais, com outras fantasias
ela apareceu, parecia tão sozinha
parecia que era minha aquela solidão”
Piano Bar

“Então, neste momento, compreendeu com espanto que não estava infeliz. A presença física de Sabrina contava muito menos do que pensava. O que contava era o traço dourado, o traço mágico que ela havia imprimido em sua vida e que ninguém poderia tirar.” Milan Kundera em “A insustentável leveza do ser” conseguiu, mesmo sem querer – e é a tal linguagem / escrita que nos permite compartilhar isso - chegar o mais próximo do ela representou em minha vida e que busquei nesses últimos dias. Não importa que não foi nem uma semana daquela vez, e que na outra não chegou a doze horas, tão pouco a um beijo, nem durante, nem após um filme em que realmente não temos vontade de beijar. Alguma coisa se dá entre nós no nível do indizível, e ele falou em meio a uma das melhores aulas da faculdade (daquela que vale o semestre) que naquilo que não conseguimos explicar está realmente o que importa. Como o fruto Cacau que tem gosto indefectível, é forte e até amargo, mas tem potencial de ser matéria-prima de toda doçura.

II

“Hoje os ventos do destino. Começaram a soprar
Nosso tempo de menino. Foi ficando para trás
Com a força de um moinho. Que trabalha devagar
Vai buscar o teu caminho. Nunca olha para trás”
Depois de nós

Num desses dias em que ando em uma rua qualquer do Bom Fim ouvindo música, totalmente alheio aos outros transeuntes, reconheci um deles de longe que vinha em minha direção. Uma ex-colega minha de colégio, da mesma turma, colega de anos, talvez de todos os dez anos que passei naquela escola. Não era dos meus melhores amigos, mas tão pouco nutria em relação a ela qualquer sentimento ruim. Percebendo que ela não havia me notado, instintivamente, atravessei a rua e saí de seu caminho. Continuei absorto na canção e nos pensamentos que ela me despertava. Lembro-me que não chorei quando me formei no colégio, tinha certeza que aquilo estava acabado.

III
“Mas, hey mãe!Alguma coisa ficou pra trás
Antigamente eu sabia exatamente o que fazer”
Terra de Gigantes

Como os autores das três músicas acima ele também começou Engenheiro e virou poeta. Largou a precisão do cálculo, a alienação da matemática pura, e a certeza da mecânica. Simplesmente parou de fingir que poderia viver a vida do homem sensato, ouviu suas inquietações, e resolveu jogar sério, subjetivamente, e colocar o dedo em várias feridas, com sal do suor e um pouco de álcool (que invés de piorar ameniza). É incrível como os anos de um curso que ninguém faz para ficar rico faz com as pessoas. Queria guardar essa frase para o caso de eu chamá-lo na formatura, mas eu seria um cerimonioso, como tentamos há algum tempo não ser: Ele é a pessoa que certamente mais aproveitou a potência transformadora da nossa faculdade de Psicologia.

Às vezes recai, porque não é possível ou necessário se livrar de certos hábitos, e então fazendo graça - mais uma coisa que aprendeu nestes loucos anos - ou não, reclama por estar velho com VINTE E SEIS ANOS (!) como se não tivesse feito mais por sua honestidade que muitas pessoas que morrem de velhice.

*Escrito para o Alemão que a mundo conheceu nos últimos anos e a menina que só eu conheci

4.06.2007

Pagando dívidas: A Maratona de cada um




Cada cual tiene ya su brega*

(Dar ejemplo es la mejor guerra)
Cada cual tiene ya su brega
(Crecer de adentro hacia afuera)
Cultura Profética – Suelta los amarres

*brega = esforço


Marchamos..
Em fevereiro de 2006, nós marchamos, alguns posts abaixo eu estava de saída. Cheguei... estou de volta com saudades daquele moleque que usou em outro espaço de endereçamento, que encontrou outra escuta, mas como tudo que é importante, insiste em repetir. Repetir até aprender, repetir até acertar, repetir até... repetir de novo.


Eu poderia dizer que foi difícil. Que foi difícil sem o Bücker que havia feito o roteiro, que foi difícil viajar por quase 20 dias apaixonado, que foi difícil ir regulando cada peso (boliviado, peruano, chileno ou argentino), que foi difícil não ter conforto, ficar longe de casa, passar o equivalente a 7 dias dentro de algum veiculo, 22h horas no desconfortável trem da morte se alimentado meia goiabada e 2 litros de “Cola Rey Diet” e para mim e para o Gabriel. Que foi difícil a convivência com ele... Mas não foi, poderia realmente me queixar de estar em Cuzco, morto de cansado, mal do estômago, com febre e gripe, tentando explicar numa farmácia que eu queria algo como um Benegripe andino. Mas não foi!

Isso sim foi:

0009.0002.2006: Chalcataya a pista de esqui mais alta do mundo 5.300 metros de altitude, ar muito rarefeito – porque rarefeito (o suficiente) já tinha em La Paz, a 3.100 m. Chovia. Mais que chovia, nevava! Não, não era neve de tv, neve de espuma ou algodão, era neve! Era a primeira vez que via, víamos, Gabriel e eu, neve! Quem não viu ainda, não morra sem.


A proposta era chegar até uma estação, fechada, pois não era época e o tempo estava feio. Como os outros começamos a subir, não devia ser tão difícil, afinal muitos turistas faziam isso todo da, e não iam nos deixar sozinhos, numa névoa que nos cegava, num frio absurdo e num caminho estreito em que podíamos cair rolando e só sermos descobertos por uma lhama ou alpaca faminta revirando a neve. Mas deixaram.


Então subíamos.. aos poucos nossa van de umas 13 pessoas ia descendo.. sem ter subido muito. Dois nem começaram, uns desciam por causa dos tênis de solado liso (de correr), outros pela falta de ar, e outros para acompanhar aqueles.. Aconteceu que eu tomei uma frente do grupo intermediário, que virou final pois os de trás deles desistiram. Naquele meu passo apressado, muito característico, ia subindo. Aos poucos a neblina ficava mais espessa, o caminho estreito e o pelotão da frente, invisível. Mas não tinha problema, eu encontrava a segurança seguindo os passos deles. Às vezes era mais difícil, pois o buraco dos pés estava grande, prendia os meus ao retira-los, mas parecia seguro.


Ia subindo, cada vez mais, só que parei de encontrar os rastros alheios, e tive que arriscar criando os meus (uma bela metáfora por sinal) para que fosse possível ser seguido pelo Gabriel e o parceiro de viagem Sérgio (Bruno desistira 15 min atrás alegando que estava com pneus de tempo seco) cadenciando as passadas, respirando levemente, como quando eu corria, um passo de cada vez, aquilo não podia ser tão difícil. Mas era. Cada vez mais lentos os passos, com pausas mais longas para recuperar o fôlego, olhava para trás e via os vultos do Gab e do Serjão subindo.
Até que começou a realmente ficar difícil.. ofegante, e meu corpo pesado.


Comecei a me perguntar até que ponto eu estava sendo insistente, perseverante, forte.. ou burro. E repetia para mim mesmo que a linha entre a coragem e a burrice era tênue, a cada centímetro que andava mais tênue. Como era de praxe parava, respirava fundo e devagar e perguntava aos 2 de trás se estava tudo bem, ao obter a reposta positiva seguia abrindo caminho. Começou a parecer impossível, e eu lembrando que sempre que corria por 55 min buscando a marca de 10 mil metros achava que não ia conseguir perto do 30 min, mas depois acontecia... dessa vez era diferente, meu nariz parecia menor do que deveria ser para puxar o ar.. ouvia que Sergio e Gabriel também se questionaram..


Aí o corpo reclamou de vez, estrelas! Sim aquelas estrelinhas prateadas que só aparecem quando fazemos grande esforço, muitas. Ouvi que o Serjão que parecia antes o pior dos 3 tomava a frente do Gab que já titubeava. Enfim, entendi era o limite, parei e perguntei, pedindo uma afirmação, se eles não queriam parar (só de pensar que deveria descer o que já estava subindo a 30 min me enchia de um medo real de não conseguir). Gabriel respondeu que era parceiro (como foi desde o 1ro dia de faculdade).


Sérgio, que não sabia mais por ser Sérgio, ou carioca-canadense, então falou apontando para uma pequena construção que estava a metade do caminho que nossa cansada vista alcançava: - vamos até aquele lugar então, será nosso challenge, nossa maratona. Nenhum de nós pensou meia vez. Concordamos que sim, e que aquele lugar marcaria mais que nosso limite pessoal, o limite do grupo..

Pausa
Momento lógica do significante: olho para trás agora e uma propaganda do David Beckham conta um pedaço de sua história... ele termina assim:
Você vai viver momentos difíceis... Basta atravessa-los.
Impossible is nothing.
Volta da Pausa


...com aquela estranha energia que só temos quando estamos perto do fim de qualquer coisa trabalhosa na vida chegamos.. AO CUME, sim, embasbacados constatamos que aquele ponto era o topo da pista de esqui! Que sentimento incrível tomou conta de nós. Conseguimos!

E isso para mim fala muito mais do que do dia em que subi um morro, fala de desejo, esforço e recompensa, fala sobre viajar, arriscar, fazer algo por um objetivo maior..como Leônidas e os 300 espartanos que não pensaram na família, no conforto, neles ou na glória. seguiram o caminho que acreditando ser o certo.


Fala do caminho, do limite de cada um, independente de até onde os outros vão ou ficam, do medo de tentar ou do desconforto. Fala principalmente do porque ano que vem eu tenho que buscar (entre outras coisas) minha melhor formação na Espanha, não importando quantos morros eu terei que subir para chegar lá.

O Rauzito falou que o caminho do risco é o sucesso, veremos...


3.22.2006

Cara eu ganho, coroa você perde

“Falam muito no destino. Até nem sei se acredito”
Vitor Ramil - Deixando o pago

“Quem tem brilho ainda precisa de fé e vontade
E batalhar que o tempo sempre trás toda a verdade”.
Natiruts – Tenha os olhos sempre abertos

O filme “Match Point” fala muito de sorte ou azar, pelo menos pro Gabriel. Ok, fala disso, mas para mim é mais, é sobre a fragilidade humana. Não vou dizer que quem é bom não precisa de sorte, mas ela não deixa de ser uma questão de viés (muito) pessoal. O que um chama de sorte, outro chama de acaso, aquele denomina destino e outro sentencia probabilidade estatística.


A própria expressão “Match Point” traz diversas divagações. Este é um termo vindo do esporte, do tênis ou do vôlei. Quem ganha um jogo? O melhor ou o mais sortudo? Mais ainda, o “Match Point” é o ponto final, o ponto decisivo, quem o faz ganha, o outro perde. Assim revelando a fragilidade de um frente ao outro, a vitória.

E existe vitória em relacionamentos???

Afinal, “Match Point” é também ponto de encontro, ou ainda “Igualar, casar, emparelhar” para se ter o “Match Point” é necessário se ter um momento de igualdade, o zero a zero, o “eu não te conheço e você não me conhece, vamos comparar nossas vidas”. O melhor professor que tive e vou ter na graduação já disse: não há encontro sem deslocamento no espaço”.


Ou seja, somente no encontro há a troca, do que quer que seja. Apenas no contato entre duas pessoas elas podem sair da inércia de seus “auto-autismos”, da impermeabilidade e “refratariedade” da nossa vida com nós mesmos. É no encontro, ou na decisão, que se revela a fragilidade. Ali é preciso se abrir, um pouco que seja, para se mostrar ao outro, e receber algo do que ele pode/quer te passar. E sorte ou azar são apenas nomes dados a algumas das tantas coisas que acontecem no ínterim de nossos encontros. As fragilidades das personagens do filme acabam se revelando quando elas passam a se encontrar, por coincidência (sorte?) ou propositalmente. Ali, elas não conseguem mais fazer (muito) semblante, o que ainda assim é um meio de se proteger da própria fragilidade, como em um casamento fracassado e de aparências. Desta feita elas têm que decidir o rumo de suas vidas

Match Point. Enfim, um ponto decisivo ou de encontro?

Se a vida é um jogo, o ponto é decisivo. Se não for, não deixa de ser, afinal é uma só. Mas melhor que eu, Vinícius (Samba da Benção):


Feito essa gente que anda por aí brincando com a vida
Cuidado, companheiro!
A vida é pra valer
E não se engane não, Tem uma só
Duas mesmo que é bom, ninguém vai me dizer que tem
Sem provar muito bem provado
Com certidão passada em cartório do céu
E assinado em baixo: Deus
E com firma reconhecida!
A vida não é brincadeira, amigo,
A vida é a arte do encontro
Embora haja tanto desencontro pela vida


2.04.2006

...nós marchamos

“Viajar é trocar a roupa da alma”
Mário Quintana

"Jogar tudo pro alto me convém, Estar acima da razão
Só porque somos jovens, só porque somos jovens
Desesperado com o mundo estou também[...]
Estou confuso joguei tudo pra trás Mas no fundo eu sei que eu não tentei de tudo
Mas que bom poder ter uma chance a mais
Não me pergunte o que eu quero da vida o que eu quero da vida
Eu tenho sede de mais"
Tudo pro alto, Charlie Brown

“I don’t belong here, Sei que não é mais o meu lugar
I don’t belong here, Não tenho data pra voltar”
O mundo é muito grande, o mundo é muito grande. Essa é a verdade absoluta nos 15, 17, 20, 25 dias em que eu Maurinho “El Pibe” Marques e Gabriel “El Fenomeno” Binkowski estaremos em solo espano Sul Americano. Entre Corumbá e Montevidéu. Passando por Bolívia, Peru, Chile, Argentina e quiçá, Uruguai.
"Não tenho tempo a perder a vida é muito curta pra fazer todas as coisas que eu quero fazer
pra viver tudo que eu quero viver, pra dizer tudo que eu quero dizer
pra ver tudo que eu quero ver pra entender alguma coisa do que vale a pena,
só do que vale a pena e aprender a esquecer
tudo o que faz a minha alma se sentir pequena"
Não, não é medo, apenas uma inquietação. Uma sensibilidade maior diante das coisas. Diria Leônidas nos 300 de Esparta (Gracias, Guto)

“Saudade da aldeia, com certeza vou chorar
Lembrando da sereia, que me ensinou a namorar”
Será uma época de reflexão. Fora da matrix, sem minha mãe para fazer almoço, sem o celular para tocar, sem o Big Brother, ou a globo para me dizer que dia é hoje ou o que rolou no senado que não mudou em nada o Brasil. Desapego, desapego. O mundo é muito grande, o mundo é muito grande.Veremos que somos apenas, cada um, uma parte em 6 BILHÕES, andinos, israelenses, brazucas, chineses e o caramba a quatro - sim o mundo é muito grande. Jovens, buscando a essência de algo. Pensarei nas peruanas? Nas bolivianas, em brasileira? Pensarei?
O que realmente me faz falta? “Será que eu sei? Que você é mesmo tudo aquilo que me faltava?” – Nando Reis

“Dos amigos do peito, tanta história pra contar”
Talvez mais que nossas famílias, nossos amigos estarão conosco. Invejando, orando, torcendo, querendo. Tudo honestamente. Mais que nos dois mesmo estará Felipe Bücker, idealizador, planejador e motivador de toda essa história. A pior coisa que poderíamos fazer sobre o fato de ele não poder ir fisicamente conosco era ficarmos também. Mais do que uma viagem, um projeto, um sonho.
Se não é fácil fazer isso, ao menos: “Lutaremos a sombra”
Se o terreno é conhecido, lutaremos a sombra, a sombra da luz do planejamento de Bücker.

“O mar, a lua cheia, decidi vou viajar”
Se não foi difícil decidir ir em uma pequena dupla, fácil não foi, mas somos jovens. Somos virgens em viagens internacionais, só que internacional não sabe nada da terra de Bolivar, Allende, Tupac, Gardel, Francescoli e Evita. Estaremos marchando, nós marcharemos, com a camiseta tricolor, conquistaremos a América em azul, como o pacífico, como o céu (el cielo) americano. Com a certeza que “Os gente boa sempre se dão bem” (Chittoni, 2004).
"sei que vou chegar, apesar dos meus desvios, sei que vou chegar e que eu não me extravio, sei que vou chegar e que eu não vou vazio"
Estaremos tranqüilos.
"Seus pensamentos eram agridoce"

“E a vida se renova, em cada esquina uma lição
Coragem posta à prova, vou seguir na direção
Da estrada atrás de um sonho, que eu nem sei onde vai dar
Mas boto fé que a cada passo que eu der,
meu caminho á iluminar”
Experiência, não é só viagem, não é só turismo, não é copia, nem discurso. É experiência, é narrativa, e a vida no grau mais puro, intenção e transmissão, marchando. É não se importar em mudar de opinião. É se permitir mudar de idéia, é baixar as defesas da rotina, é o deixar-se surpreender:
Volte com seu escudo ou sobre ele!
Quem nascia de 6 meses, 1,6 kg e apgar 1 em Esparta era condenado ao abismo, nunca seria um guerreiro. Mas Alexandre, o grande, mostrou anos depois que o importante não é o tamanho das pernas e sim "até a mente da gente pode ir".
Sabemos que o mundo não é um moranguinho doce, que não será fácil e nem queremos, isso nos excita.
"Nada, nada, respira direito respira, respira, o ar ficou rarefeito
se a canoa tá virada não tem outro jeito vai
no peito e na raça, vai na raça e no peito
Nada como um nado estilo livre nesse mar
nado de peito que é desse jeito que eu curto nadar"
Não, não é medo, apenas uma inquietação. Uma sensibilidade maior diante das coisas.
E nenhum mal nos acontecerá, porque Gabriel anunciou na entrada de 2006, o ano em que só não vale dedo no olho “Mãe, eu tenho 20 anos, e sou invencível” e como faltando 19h para a viagem eu e o professor concordamos “I´m Spartacus!”. Fui!

O mundo é muito grande, o mundo é muito grande,
e nós..

... NÓS MARCHAMOS!

Citações:
Aldeia - Natiruts
Os 300 de Esparta - Frank Miller e e Lynn Varley
Tempestade - Gabriel o Pensador


Preparativos

11.09.2005

Se fosse fácil achar o caminho das pedras.. Tantas pedras no caminho, não teriam graça nenhuma!

“Seria mais fácil fazer como todo mundo faz..
..mas nós dançamos no silêncio, choramos no carnaval, não vemos graça nas gracinhas da TV, morremos de rir no horário eleitoral” (Engenheiros do Hawaii)

“Um homem que perde um emprego para uma máquina, é pq merece perder o emprego para uma máquina” (Não me recordo o autor)

O Leonel certa vez me falou uma frase.
Uma frase que abalou todas as idéias, as idéias de certeza que eu tinha na minha vida.
Tudo aquilo que eu esperava quando fazia alguma coisa. E quando não esperava também.
Ele falou:
- Tchê Maurinho, a graça, o bala, é quando dá errado!

Depois de alguns exemplos entendi melhor.
E aquilo me destroçou por completo, mudou todo o paradigma.
Afinal, o que é o “dar certo”??
É acontecer da maneira como todos esperam, é seguir o plano, é o óbvio, o esperado, o que QUALQUER Zé mane faria.

É Nascer, Crescer, fazer escola toda, faculdade toda, com um namoro (ou vários encadeados – como o macaco prego que só solta um galho quando está com a mão em outro) que vira noivado e casamento. O noivado depois (ou no ultimo ano) da faculdade, na época de inaugurar o consultório. Casamento depois do ap comprado (com grana do marido e/ou pais). Uns 3 anos depois filhos. Reproduzir. Talvez algum livro. Aposentadoria. Casa em Atlântida na "adultes" e em Gramado (ou fazenda) na velhice. Morte sensata dormindo. E Morrer.
“O ciclo de vida do homem/mulher sensato” diria o professor Guto.*

Ciclo de vida até esponja tem.

Afinal:
Não foi “dando certo” que tio Sig. Freud escandalizou, e transformou, o mundo da ciência com suas teorias sexualizadas.
Não foi "fazendo o que todos esperavam" que Maradona, Garrincha e Ronaldinho Gaúcho deixaram atônitos dezenas de zagueiros e centenas de telespectadores.
Não foi "seguindo o plano" que dezenas de exércitos na história ganharam de tropas gigantescamente maiores.

A vida é a arte do improviso.
Se você está pronto para o inusitado, você está pronto para fazer a diferença. E a diferença definitivamente não se faz fazendo o normal.

Como disse Hitch no filme:
“A Vida não é quantas vezes você respira, e sim os momentos que te tiram o fôlego”.
.
* Sobre o homem sensato ler o post de 3 de Julho

10.16.2005

St. Valentines Day Massacre.. ou: considerações acerca do mundo -¹ (na menos 1)

But I still haven't found What I'm looking for
But I still haven't found What I'm looking for
U2

Acordei era 14 horas, cabeça latejando, boca seca e na cadeira ao lado uma calça e uma camisa cheirando a cigarro. Os sinais eram claros... era domingo! Coloquei uma lasanha congelada no forno, enquanto ela esquentava, eu ouvia rádio e lia o Correio do Povo. Nas manchetes o “Não” ganhava do “Sim”, o nonagésimo escândalo do PT e na rádio um pagode meloso. Nada disso me impressionava, me tocava, achei um pouco estranho, olhei pra dentro, vasculhei um pouco, puxei lembranças, músicas e o nome da moça da noite anterior.

Em vão.

Não achei o romântico que outrora existia em mim. Pensei em ficar triste por isso, em lamentar. Não deu, aquele Eu que teria estas reações era o mesmo que notei ter perdido.

Debrucei-me na sacada, um pouco surpreso com a constatação, para pensar como aquilo tinha acontecido. Só que tive de retornar a cozinha o Cd do “50 Cent”, que meu vizinho que acha que seu rádio é um trio elétrico de Salvador, estava alto demais, e também pq me peguei cantarolando “I'll take you to the candy shop, I'll let you lick the lollypop”

Lamentável

Respirei fundo, puxei a porta e continuei minha abstração. Pensei nos últimos acontecimentos da minha vida, nas minhas últimas conversas, no jornal nacional, no que o Guto tinha falado e no que o Bücker tinha vivido. Lembrei de meus pais fazendo carreata nas eleições, do Tinga pulando com a cara na bola vestindo a tricolor e do tempo em que eu achava que falar a verdade era sempre o mais correto que se podia fazer.
Achei a penumbra daquele que procurava quando finalmente me entristeci pela perda das fantasias.

Raciocinei, e quando fiz isso a luz acabou com a réstia da sombra do romântico. Pensei nas meninas que não sabem quem é Shakespeare, mas dançam funk até chão. Nos caras que mal e mal tiravam 6 em química, mas tomam BCAA, Albumina, Creatina e por tomarem bomba (em biologia, também) ignoram a tireóide. Me frustrei ao perceber quantas vezes eu quero comprar um ticket pra esses parques de diversão que só tem a Casa dos Espelhos.
E me dei conta que o mais romântico que existe hoje e o qu chora vendo a novela das oito.

O cheiro ficou mais forte. Finalmente estava ficando quente, a lasanha, não eu. Fui come-la – sozinho – no quarto, vendo a Globo

9.20.2005

Depois que já foi tarde

Sonhos..
Sonhos não são mais
que a falta de coragem.
O pensamento
é um sonho acordado.
O sonhador é nada mais
que um realista fracassado.
No refugio do fracasso,
o passado parece vitória
a realização do covarde
que sozinho, e de olhos fechados
Se acha tão dono do destino,
quão senhor do passado,
e criador duma nova realidade.
Ele sonha, sonha, procurando tornar-se
um Super-Homem de verdade.
Que ao contrario do humano fraco,
não tem remorsos nem ansiedade.
Ele sonha, como quem busca a perfeição
Sem saber que quem sonha não alivia,
mas maltrata o coração.


10 de janeiro de 2001, 2h43min

8.28.2005

Som ambiente

"Que saudades do gato da Lisa!" Lenny, chorando ao ouvir ela cantar a musica "Meu gato morreu na noite de Natal" Escrita por H. Jay Simpson para o concurso do Krusty
Hoje passei algumas horas ouvindo 2 grandes violeiros desconhecidos do grande público - e talvez aí o maior trunfo deles, só queriam agradar a si próprios - dedilharem seus violões músicas de toda sorte. Reggae, Rock, MPB e FreeStyle, maravilhosos improvisos (como se fossem dribles do Robinho).

O som (sem letra na maioria das vezes) estava tão bom e bonito que fui atingido por uma certa melancolia.

Senti sinceras saudades de coisas que nunca aconteceram..

Como seriam mais belas nossas vidas se elas tivessem trilhas sonoras.....

6.11.2005

A volta dos que não foram.. ou Ctrl, Alt e Del: Controle + Alteridade = Deleite? Parte 2

“Será que eu sei? Que você é mesmo tudo aquilo que me faltava?” (Nando Reis)

Então no filme as pessoas podiam apagar lembranças de suas vidas, completamente, qualquer rastro da existência da pessoa que tanto mal te fez. E isso me trouxe uma inquietação, quem eu apagaria da minha vida?

Não gosto de me utilizar clichês, como um dos mais batidos: Me arrependo só do que não fiz. Aqui ó pra quem diz isso, bullshit! Arrependo-me de muitas coisas que fiz sim, só não penso que bom que seria se eu pudesse voltar e arrumar aquilo pq sei que é impossível, então é sofrer a toa, é um mecanismo eficaz, quase sempre. Todavia, há situações em que o que nos magoa não são atos nossos e sim relacionados a nós, que não podemos evitar (Não podemos? Tem certeza?) vindos de outra pessoa. Então toda vez que tu vê ou pensa nessa pessoa tu tem aquela lembrança ruim, a associação é direta e a dor é quase palpável.

Isso se chama frustração, é o que levaria pessoas a apagarem outras de sua vida.

Só que a frustração vêm geralmente de uma expectativa exacerbada de algum objeto de desejo (para mais informações leia o post abaixo). Tá, e como essa esperança pode penetrar em pessoas tão bem informadas e preparadas (ui!)? O nome dessa condição é carência, que funciona como a Aids na nossa estrutura psíquica, sozinha não faz nada, porém, te deixa com a resistência lá embaixo para fatos que poderiam ser corriqueiros se tu estivesse num estado “normal”. Aí aquele pagode meloso vira a enésima sinfonia de Bethoven, aquela comédia romântica merece o Oscar, e aquela paixonite tão boba toma contornos de um grande amor.

Então o investimento afetivo que é feito em alguém pode não corresponder ao que você esteja sentindo, e sim ao que você queria sentir, por aquela pessoa, ou por qualquer uma. É a desgraça da carência...
“Será que eu sei? Que você é mesmo tudo aquilo que me faltava?”

Quando nos responsabilizamos por nossos atos, pensamentos e sentimentos, estamos dando um grande passo para ficar com alguém pelo que essa pessoa é, e não pelo que você quer que ela seja. Dói no início, no meio e no fim. Mas te dá as rédeas da tua vida, e te faz apostar todas as fichas no melhor cavalo que tu deve conhecer, a ti mesmo (Marques 8.2005)

"Não há caminho novo. O que há de novo é o jeito de caminhar". (Thiago de Melo)

Só que assim aquela maquininha do filme é desnecessária. Afinal a culpa sempre será tua.
E agora mister M? – "Apaga-te" a ti mesmo!?


* Agradecimentos a Vitor eDEgar, o mais doente que eu, nos links a direita, na vida eu não sei. Pela indicação de “Brilho eterno de uma mente sem lembranças”.
** E a todas as gurias que eu amei, ou quis amar ou achei que amava. Na hora não fazia diferença
.